quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Querido diário

Nina chegou em casa aquele dia como costumava desde que casou com o Chico, coisa de quatro anos passados. O viralata já lhe esperava por trás da porta, as orelhas de pé, o rabo sacudindo, a alegria em forma de vida. Chico zapeava pelos canais da tevê por assinatura sem se fixar em nada, gastando tempo, calado, sem camisa - era verão e o apartamento era pequeno.

A mulher havia passado o dia batendo perna atrás de um novo emprego. Sorrindo forçado, se esforçando para não desmanchar o penteado, não amassar a roupa, não parecer que precisava de um dinheiro para as contas e o empréstimo e a sexta-feira com os amigos. Foi um dia difícil, em suma. Mesmo assim, tentou deixar o dia no corredor e entrar em casa sorrindo, como gostava tanto de fazer que virou o hábito.

Com o viralata no colo, se sentou ao lado de Chico. Beijo rápido. Conversam brevidades. Não, ninguém me ligou de volta. Sim, levanto cedo amanhã. Olha, você precisa fazer essa barba pra festa no sábado. Deixa que eu faço a janta hoje porque você precisa descansar.

Chico se levantou e foi para a cozinha, meio preguiçoso, mas ainda um cavalheiro. Nina desligou a tevê, pôs uma música no lugar e foi pro banho. Demorou-se ali, de olhos fechados e pensamento longe, numa viagem de final de ano com Chico, então seu novo namorado, que estava aprendendo violão e tinha cabelos compridos. Era a primeira viagem deles e foram passar os últimos dias do ano numa praia. Chico lhe sorria o tempo todo nas memórias, mas isso ela era capaz de deduzir que era consequência de serem memórias boas. Ela se impressionava mesmo com o sorriso per si, que, fazia tempos, não era mais aquele que ela lembrava, pelo qual se apaixonou.

A janta estava pronta quando ela saiu do banho, se enxugou e colocou o pijama. Não vestiu qualquer pijama, vestiu uma camisola-fatal, verde-escuro, que lhe deixava gostosa, mulher, segura - era até meio ridículo que fosse um pijama. Chico sorria diante da mesa posta, ainda que fosse um ligeiro miojo-com-atum-em-lata, ele havia feito um molho baseado em azeite, cebolinha e mostarda picante para enfeitar. Comeram, pouco falaram. Chico parecia meio absorto em si, Nina tentava encontrar algo naquele rosto que ela pudesse decifrar, mas tentava sem muito método.

A louça ficou na pia e os dois foram para o quarto. Nina procurou o beijo e o alcançou, agora com mais gosto. O corpo de Chico compreendeu rapidamente a mensagem e foram para a cama, o viralata assistindo a tudo meio bobo, meio excluído. Chico costumava demorar mais, demorar melhor para comer Nina. Ela gostava da demora como da urgência, mas sobretudo de perder a noção das coisas terrenas e insignificantes e desmanchar-se diante daquele homem. Nina sentia uma espécie de aflição agora, como se fosse uma mulher sem orifícios diante de um homem morrendo em vida.

Chico fechou os olhos e cerrou os dentes. Um último suspiro. Ela decidiu que no dia seguinte entraria em casa sem o sorriso. Talvez ele recuperasse o dele para manter as coisas funcionando.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Safadeza

O moço entrou e pediu por uma água. Estava quente na rua.

Ele subia a rua com seu bigodinho aparado e o terno meio tosco de proletário de escritório, depois de descer no ponto final do coletivo, uma esquina mais pra baixo. Caminhava devagar, como se a vida lhe bastasse daquela maneira. Eu cuidava de atender a clientela no bar da mãe, que conferia o caixa antes de dar o dia por encerrado. Não tinha sido um dia tão bom assim, o movimento estava fraquinho e o freezer das cervejas voltou a dar problema.

Bem que minha mãe avisou pra ficar longe daquele moço porque ele só queria saber de safadeza. E ela me avisou desde o primeiro dia que me viu de chamego e toda sonsa com os salamaleques dele. "Esse tipinho não me convence, não, minha filha, ele tá é na má-intenção", vaticinou Dona Sônia.

Fiz pouca mouca. O moço tinha uma voz tão gostosa de ouvir, ainda mais no finalzinho da tarde, que era quando ele costumava aparecer na rua, todo simpático - sorria pros moleques jogando bola, cumprimentava as pessoas que voltavam do trabalho e alguns que naquela hora é que partiam para o ganha-pão. E ele nunca havia, nem de longe, se dado a desrespeitos. Ele gostava de uma boa conversa, sempre tinha uma coisa nova pra contar, ele trabalhava levando documentos pra assinar, entrando em filas, essas coisas.

Acheguei-me na mesa onde ele se postou e afrouxou a gravata meio surrada, com a água, o copo com gelo e o cardápio - uma folhinha plastificada com os quitutes locais no verso e as bebidas na frente. Abri meu sorriso, um botão da blusa e espiei com o canto dos olhos se a mãe tinha percebido. Ela sempre percebia, dava pra ver o meneio com a cabeça enquanto fazia as contas e separava as notas e as moedas. Perguntei se ele queria mais alguma coisa.

Eu bem queria é que ele respondesse que sim, queria que eu me sentasse em seu colo, só pra começar. Mas o moço nunca havia, repito, nem de longe, friso, se dado a desrespeitos, apesar da mãe ter certeza do contrário e dos decotes que eu improvisava, das saias curtas que eu usava desde que ele resolveu fazer do bar uma parada quase diária da volta pra casa. Ele disse que aceitava um pastel de carne e um guaraná.

Enquanto eu estava na cozinha providenciando o pastel com todo o meu capricho, a mãe veio ter comigo. "Sabe se esse safardana vai demorar muito? Já fechei o caixa hoje." Eu disse que ele pediu o pastel e um guaraná, além da água que estava bebendo. Ela repetiu que não queria demorar a fechar o dia e resmungou qualquer coisa mais pra si do que pra mim. E disse que ia dar uma olhada no periquito, seu periquito de estimação, que ficava nos fundos da casa, nossa casinha de alvenaria logo do lado do bar. "E não me demore, hein, que eu estou de olho em vocês e feche direito esses botões na blusa, menina." Eu respondi que estava tudo certo, esperei ela sair e abri outro botão.

O pastel ficou pronto e fui servi-lo com o guaraná, o moço lia a página de esportes, mesmo que meio amassada. Ele agradeceu e disse que não se demorava. Eu disse que não havia pressa e ele perguntou se eu não queria me sentar à sua mesa e lhe fazer companhia. Reparei que ele tinha os olhos timidamente presos (constrangidos?) ao decote proposital que abri na blusa. Não apenas me sentei, como o fiz sorrindo e perguntei se o pastel estava a seu agrado. Ele assentiu com a cabeça a caminho de mais uma mordida.

Não falou muito, e o pouco que disse, foi só para quebrar o silêncio. Após o último gole do guaraná, sorriu satisfeito e perguntou quanto custava tudo. Um pastel de carne, a água e o guaraná são sete reais, moço. Ele pagou uma nota de dez e me acompanhou até o caixa pra eu pegar o troco. Abri a gaveta da registradora, vazia. A mãe já tinha recolhido a féria do dia. "Olha, moço, a mãe já fechou o caixa mas podemos ir ali na cozinha, tenho certeza que deixei uns trocados ali e você pega o troco". Meus olhos devem ter brilhado porque não contive um sorriso quando ele aceitou me acompanhar pra ajudar a encontrar o dinheiro.

Fechei a porta da cozinha discretamente. Mesmo com a porta fechada, dava pra ouvir a mãe cantando com o periquito. 
Mal sabia ela que safardana por safardana naquele bar, eu apostaria mais em mim.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O homem velho

O homem velho estava sentado na cama e observava taciturno a moça que se achava ao seu lado, deitada, igualmente nua. A moça não era velha, não igual a ele, decerto.

O homem há algum tempo matutava acerca daqueles bicos dos seios, que eram tão escuros e certamente gostosos, porque fartos. O homem, apesar de velho, não havia tido, nem mesmo quando mais moço - e era considerado moço bonito - tantos bicos de seios expostos a suas vistas e ao alcance de suas mãos. Pertencia a um outro tempo e quiçá a uma outra ética, onde se casava bem cedo e permanecia fiel ao juramento dito à amada em uma igreja cheia de conhecidos. Era a primeira vez que via a olho nu bicos dos seios feito aqueles dois.

O homem estava um pouco constrangido também diante de sua ereção. O falo tão ereto diante daquela moça tão mais jovem o surpreendia, ele que já não se achava mais capaz de tanto. No entanto, não precisou fazer qualquer tipo de esforço sobre-humano para perceber o sexo se enrijecer assim que a moça o abordou no velório de sua falecida esposa, se aproximando dele discreta com seus pesares e seu vestido enlutado que fracassava, fracassava ferrenhamente, na hora de ocultar o contorno de seus quadris.

O homem ficou perturbado mas não conseguiu evitar que seus olhos tentassem buscar, quando ele menos se distraía na dor, no abraço dos filhos e no lamento dos amigos os quadris da moça, que após ter oferecido seu pesar e ter confesso que a falecida Joaquina era muito boa pessoa e deixaria saudades em todos da firma se retirou para um canto onde outras senhoras, não tão voluptosas feito ela, estavam conversando em voz baixa. Ele reconheceu as amigas de trabalho de sua esposa naquele grupo.

O homem percebeu que a moça acompanhou o cortejo até que o corpo de sua Joaquina fosse devidamente depositado no abrigo e as pessoas começaram a deixar o cemitério. A moça parecia realmente muito comovida, mas chorava com discrição. Ele já havia pedido aos filhos e amigos que o deixassem um pouco só por instantes após o enterro ter acabado para caminhar na direção de casa, ele julgou que lhe faria bem uns passos solitários e morava a coisa de vinte minutos dali, quando sentiu que a moça se aproximava dele. Foi ela quem lhe deu o braço e diante desse novo contato, seu pênis não se demorou em renascer caralho.

O homem ouviu a moça renovar seu luto, porque Joaquina era excelente pessoa e nunca havia feito pouco de seu trabalho na firma, pelo contrário, já havia mesmo a defendido diante de um chefe grosseirão e de colegas invejosas. Ouviu mais, o homem, ouviu que Joaquina sempre tinha um sorriso e uma coisa boa para contar dele, o marido, e que ela, a moça, não teria nenhum incômodo em ajudá-lo quando preciso, especialmente nesses primeiros dias difíceis. O homem não encontrou dentro de si (e mesmo fora) resistência ao ato que cometeu sem maior aviso, de tomá-la em braços e beijar sua boca com tal desatino que pareceu um talento natural para ser calhorda. Foi a moça, surpresa ela também consigo, que ao se desvencilhar dos lábios daquele homem velho pronunciou a sentença derradeira: "Vamos lá pra casa, aqui não é seguro".

O homem não esperou que se despissem, sequer esperou o quarto, só esperou que ela trancasse a porta da sala e se voltasse para ele com um sorriso inédito e sem-vergonha. De algum modo chegaram à cama. Antes que ela começasse a se despir, ele lhe levantou a saia e a possuiu com uma força da qual ele não se sabia senhor e a levou ao gozo com uma dignidade que ela poucas vezes havia testemunhado num pau duro. Exausto e asustadiço, ele pediu licença para usar o banheiro, que aliás não sabia onde ficava.

O homem encontrou a moça em decúbito dorsal, já desnuda e ainda mais suculenta, ao retornar à cama. Após minutos sentado na beirada do colchão, ele se despiu igualmente e ficou admirando aquele ser que lhe devolvia a juventude com tanto desvario. Os bicos negros e impossíveis. A piroca novamente tensa.

O homem observou que a moça abriu os olhos e se dirigiu a ele. Sentiu o toque de seus lábios em plena face, bem próximo de um dos seus olhos fechados. O beijo seguinte lhe alcançou a boca, com a língua e todos os dentes, algum batom e alguma força. A mão dela lhe punhetava a pica enquanto os lábios desciam pelo seu torso. Ela lhe mordeu os dois mamilos. Lambeu o umbigo. Segredou que ele era um gostoso de um filho da puta. Disse mais, mas não em seguida. Antes sua língua percorreu com esmero o falo. E a boca mergulhou de volta, sedenta.

O homem percebeu então a voz da moça dentro do seu ouvido confidenciar exatamente nestes termos, sem mais ou menos: "Vou te dar o cu, mas que você não se atreva e repetir o nome de Joaquina novamente quando gozar, seu velho sacana, que eu gosto muito dela".

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Mais gostosa do que linda

Ela usava um chapeu e mais nada. Consultou o celular e procurou na minha roupa pelo maço de cigarros sem-filtro. Abriu a janela subiu as persianas para fumar sem maiores pudores.

Era sábado e era dia, aos poucos fui voltando a mim, ao quarto dela, à cidade grande. Da janela ela observava a rua deserta, da cama eu observava a linha que marcava a coluna vertebral daquela criatura tão possível descer até se fendir na bunda.

Quis dizer a ela que aquele cigarro jamais acabasse. Quis dizer a ela que não se movesse.

Ela se postava diante do mundo tão sem vergonha. Fui gravando aquele instante na retina para que ele perdurasse em algum lugar dentro de mim. Aquela mulher tão possível, de linhas tortas e imperfeitas, fumando em silêncio talvez jamais voltasse a existir. Haveria sua presença no mundo mas não naquele estado, não naquela manhã. Aquele instante era meu.

Não disse nada ao cabo, apenas permaneci na cama, preguiçoso, com meus olhos remelentos focados nela, mais gostosa do que linda.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Raspas de limão

O coletivo seguia no trajeto carregado de passageiros, era um final de tarde, a gente cansada voltando do trabalho. Foi quando deu-se a confusão.

De início, apenas o bafafá. O ônibus contornava uma daquelas longas curvas onde precisamos nos segurar como possível e o burburinho de vozes ia tomando corpo, ocupando o espaço que sobrava e logo desconhecidos comentavam entre si, ainda que não compartilhassem de qualquer tipo de intimidade prévia: uma indecência, onde já se viu, isso é culpa do tal de tuíter, ah, só podia ser no governo do pê-tê, absurdo total, canalha!


Foi uma senhorinha que estava sentada ao meu lado e tão longe da origem do rebu feito eu que vociferou o "canalha" com a exclamação, em tom de voz bastante audível. O protesto dela também marcou o final da curva e de súbito o automóvel foi reduzindo a velocidade, fato que por sua conta reforçou a central de comentários no ambiente. Agora se falavam em chamar a polícia, surrar o canalha, chamar a polícia para surrar o canalha, teve um menos atento que chamou os polícias de canalhas, mas este realmente estava noutra sintonia.

O autobus realmente ligou o pisca-alerta e encostou próximo a uma parada de ônibus, como se deve no caso de apresentar algum defeito mecânico ou, como de fato se passava, sob motivo de força maior. O trocador saiu de seu posto e foi confidenciar alguma coisa ao motorista, que olhava na direção dos passageiros para tentar identificar o culpado do tumulto.

As pessoas foram se afastando do epicentro de tudo onde jaziam de pé uma moça com visíveis e embaraçosas lágrimas na face ainda juvenil, trajando uniforme de trabalho de escritório e ainda próximo a ela um rapaz, igualmente em seus vinte anos, segurado por outros dois homens mais velhos, visivelmente apalermado de susto e constrangido.

O motorista levantou-se de foi caminhando, heroico, saltou a roleta e pisou firme em direção ao moço, um moço meio franzino, os olhos claros e cabelos raspados, pele parda. Os dois homens que o seguravam tinham nos olhos a vingança, não sei se por conta da realidade de andar de ônibus, trabalhar demais, ganhar de menos ou porque aquele rapaz havia, vá saber, bolinado a moça ou insinuado indecências em público ali no aperto coletivo.


O condutor no entanto revelou-se excelente diplomata. Se havia a expectativa de que o tarado fosse levar um tiro na cara ou um soco na boca, o motorista tratou logo de pedir que a dupla não fizesse nada além de vigiar o rapaz e o mantivesse ali até que ele esclarecesse a situação. Então, ele se virou para a vítima e perguntou se estava tudo bem, o que havia se passado.


A menina baixou o rosto e envergonhada, voz baixa, confessou. Era ex-namorada do rapaz em questão, havia terminado com ele havia um par de meses e que não queria que fizessem mal a ele. Um grande número de pessoas se espantou, natural, outras riram maldosamente. Mas como se deu a confusão, quis saber o condutor. Ela, então, num fio de voz que desejava emudecer, confessou que esbarrou no moço sem querer e logo se reconheceram, trocaram palavras e o moço então lhe falou, mas não ao pé do ouvido, lhe falou bem claramente e as pessoas próximas puderam ouvir, que gostaria de dar nela um beijo bem dado no vão dos seios ou na penumbra do cu.


A expressão de três ou quatro passageiros confirmou a história. O motorista perguntou se ela  gostaria que chamassem um policial ali, temos um posto de polícia próximo, que isso não era coisa de falar a uma moça, um desreipeito. A moça negou, reafirmou a vontade de não querer mal a ele mesmo assim, mesmo com a obscenidade pública.


O motorista suspirou e se voltou para o rapaz.  O melhor, para evitar maiores consequências é que você desça aqui mesmo do coletivo. Precisamos continuar a viagem e o senhor já fez tumulto o bastante. O rapaz concordou, os dois homens o soltaram meio a contragosto e ele foi descendo as escadas, devagar, vencido. Então, quando ele alcançava o último degrau, a menina saiu atrás dele, firme, apressada. 


Ele percebeu e parou, se virando, não sabia se seria agredido, se era a hora de sair correndo da turba. A menina lhe puxou pelo braço e ao alcance de todos que quisessem saber, lhe disse que o beijo estava aceito e disse mais, vejam só, disse que ia temperar a bunda com raspas de limão naquela noite, só pra receber o beijo.


Os dois desceram e o coletivo seguiu em frente, cheio de gente cansada voltando do trabalho, mas alegres, agora, definitivamente sorridentes.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O troco

O troco, a paga, a refeição que se coze em nitrogênio líquido para ser servida em bandeja de prata. Ele compra cigarros até o dia 10 e comida até o dia 28. Ele está subindo as escadas num resfolegar obeso, embaraçoso. Maria sorri.

Hoje já é o vigésimo nono dia do mês e seu dinheiro virou tema de ficção há quatro dias atrás, numa mesa de sinuca. Ele sabe bem disso e o fato o importuna. 

Cada degrau do lance de escadas que o transporta da sala para o segundo andar da casa enorme que alugou range a seus pés e ele chega a pensar que os degraus quase não suportam mais o fardo que ele leva sobre os ombros: o emprego que lhe paga mal, a amante que ele fode mal, os dois filhos que se comportam mal, a esposa com quem mal conversa.

Maria, no entanto, sorri. Maria sabe que o dinheiro acabou – a sinuca, a cana, a amante, as putas, os cavalos – e sabe que ele está de péssimo humor. Maria sorri porque sabe que a cada degrau calçado por aqueles pés, ele alcança o destino que merece. Maria sabe de algo que ele não desconfia, e Maria sabe amar.

Ele não sabe amar, isso é certo. Ele lhe esbofeteou a cara na mesa da janta na frente das crianças há dois anos atrás. Cinco anos de casamento. Contas atrasadas, palpites mal assinalados, o bife mal-passado. Não teve um aviso, um olhar furioso, algo que a preparasse para o pior. Houve o baque seco e então a ardência, as crianças mudas. Ele retornou ao prato de comida – pegou a faca e cortou o bife, que molhou o arroz e o ovo frito do jeito que ele pedia.

Maria engoliu em seco. Até conhecer o outro, um ano e meio depois daquele (primeiro) tapa. O outro não ganhava muito melhor nem trabalhava muito menos. O outro não era muito mais bonito. O outro tinha até uma acentuada calvície e dentes amarelos de cigarro e café. Mas o outro gostava dela, de modo que Maria passou a ser beijada no rosto, nas mãos, nas pernas, na boca, no vão dos seios (arrepio).

O outro ainda por cima sorria. Sorria das coisas que ela contava, sorria quando ela mostrava os retratinhos das crianças que ela portava na carteira, sorria quando ela teve medo na primeira vez e quis fugir antes que não desse mais tempo.

Ele não tem como saber de nada disso, só sabe que as escadas rangem a cada passo. Ele está meio zonzo com os três copos da branquinha que virou duas esquinas passadas (mandou pendurar na conta) e só agora se deu conta de que esqueceu de passar na venda e trazer alguma carne moída pra janta. Mas a mulher anda esquisita, outro dia estava até num assovio quando tirava a roupa da corda, quiçá não lhe encha o saco e deixe por isso mesmo.

O que ele deu conta de saber é que a escada começou, ali pelo meio da subida, a ranger mais que o habitual. A casa era velha, as crianças morriam de medo da escada, que fazia barulho e só agüentava uma pessoa por vez. Ele não acreditava nessas coisas que rangem e o próximo passo foi propositalmente mais pesado, para mostrar ao mundo quem dava as ordens na casa. Foi quando a escada cedeu.

Maria sorriu sentada na cama de casal e aguardou as crianças aparecerem na porta, com a notícia na ponta da língua. 

Porque a janta daquele dia seria servida como se deve: fria, na louça de prata que ganhou da sogra, presente do casamento.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Chope

Casal sentado numa mesa de bar, final de tarde, bar não muito cheio, apesar de já barulhento. Ela fuma.

... então agora você fuma?
fumo. desde que conheci o arnaldo, ele fumava muito, acabei indo atrás.
ô, garçom. dois chopes, o meu escuro faz favor, querido. e um cinzeiro.
tem problema fumar aqui, moço?
(não, dona, pode fumar, já trago o cinzeiro.)
engraçado que você detestava fumaça de cigarro, comprava até umas brigas.
sim... porra, o tavinho morto. sabia que eu fiquei com ele? foi o primeiro cara que beijei na facul.
acho que lembro disso, foi uma festa no centro acadêmico?
não, antes dessa, teve uma chopada, acho, lembro tinha muita maconha, MUITA.
ah, não fui... ou não lembro, lembro mais da festa do cêá. 
nessa eu não pude ir porque minha vó tava internada, tadinha.
(dois chopes, um escuro. vocês já tem comanda?)
pode anotar tudo numa só? tem problema, rita?
não, melhor assim.
(claro, chefia, à vontade.)
nunca fui tããão amigo assim do tavinho, acabei vindo porque o edu me ligou e não quis ser escroto.
com o edu eu também fiquei, rárá, ai, o edu...
porra, hein, rita.
o que tem? você comeu a izabel, que era lésbica! todo mundo sabe.
e daí? o que tem a menina ser sapata?
eu não posso dar pros meus amigos de turma mas você pode comer as minhas amigas todas?
não comi suas amigas todas.
izabel, luana, carolina - e carolina teve a machado e a pacheco! sacana! elas brigaram por sua causa, sabia?
rárárá, ah, verdade, mas, porra...
porra o quê. comeu, não comeu?
tá, vai, comi. mas a izabel... só o marlos não comeu a izabel.
(???)
ela era a maior porralouca, rita. deu pra toda nossa turma, no segundo semestre rolou até uma aposta, que o último a comer tinha que pagar uma cervejada. em dois meses a aposta acabou e éramos uns oito.
ai, carlos, como você mente!
pô, o diogo nunca te contou isso? ele não é teu amigo? ele comeu a izabel desde a primeira semana de aula até o final do curso! ele tem até foto.
mas vocês, também, um pior que o outro.
rárárárá. porra! 

Acende outro cigarro. Duas longas tragadas. Ele beberica o chope.


e o arnaldo, tá bem?

terminamos. tem dois anos. não falei mais com ele.
bah, não sabia.
tou vendo.
é que você tem uma aliança de noivado. achei que era do arnaldo.
ah, claro, mas o meu noivo é o marcos.
eu conheço?
difícil, ele é editor lá da revista. marcos amaral.
ah, da revista perdi contato. aliás, perdi contato com quase todo mundo da galera, larguei as redações. montei uma agência de consultoria em mídia. só trabalho com publicidade, agora.
ah, o diogo me contou tem um tempo. falou que você tá montado na grana. só vips na clientela.
rárárá.
viu? até rindo à toa, você já tá.
o diogo é foda. também não é assim. levou um tempo pra gente reaver o capital investido. agora tá melhor. pô, mas parabéns do mesmo jeito.
ah, que gentil. (alguma ironia no trejeito.)
sério, bacana mesmo. você merece.
Ambos trocam olhares e silenciam. Ela tem o instinto de tragar mas o cigarro já está no filtro. O lugar encheu um pouco mais. Carlos pede mais dois chopes, o dele escuro. Rita se emocionou com a franqueza que percebeu nas palavras de Carlos.

acho que a gente não se via tem mais de 5 anos, hein, carlos.

tudo isso?
você ainda tinha cabelo, eu lembro.
nossa, meu cabelo.
na faculdade você era cabeludo. achava tão bonito.

Riso encabulado, Carlos passa a mão na calvície, quase por moto-controle.


outro dia o marcos me perguntou de uma foto que achou perdida no computador: lembra da viagem pra blumenau?

você tem foto daquela viagem?
nem eu lembrava. acho que a carol pacheco tinha uma daquelas cybershots, ela que bateu a foto. nós dois e um tiozinho engraçado no meio.
porra, o tio otto, ele era o dono da pousada!
foi boa aquela viagem.
ô.

Silêncio cúmplice. Chega o garçom com os chopes.


a gente já tava junto ali?

mais ou menos, acho que a gente voltou namorando, mas fomos naquela "vamos ver o que rola".
acho que na primeira noite você me convidou pra dormir contigo, porque tava frio.
e você ficou tentando me comer. 
foi?
sim. sacana. deitou de conchinha e ficava me sarrando, a carol logo na outra beliche.
rárárá. verdade. mas, porra, você tava rebolando, vai.
bobo. na frente da carol? ela toda sem-graça que tinha dado pra você não tinha nem um mês.
ah, mas foi uma parada que rolou de momento, uma rapidinha. ela tinha até namorado, um cara do exército.
isso, sargento, ubiratan o nome dele, ela dizia que o namorado tinha uma piroca enorme, que machucava.
sério? bah, olha isso.
sério, e ela adorava aquilo.
rárárárá.
ela agora mora na frança, casou com um sueco.
chique.
pra você ver.
éramos tão felizes naqueles dias.
(...)
parecia que a vida seria sempre um grande dia, é a impressão que levo.
e agora?
agora me preocupo mais com as horas.
é...

Rita pede licença para ir ao banheiro. Enquanto ela se ausenta, Carlos confere seu celular e pede mais chopes. Chegam pouco antes dela voltar, visivelmente alegre. Carlos se espanta, no seu íntimo, fazia tempo que não percebia como Rita era bela.


e você vai continuar solteiro?

não é de propósito.
não?
ah, é meio complicado, já engatei uns namoros e quase me casei.
como quase?
faltando 15 dias ela disse que o analista tinha falado para ela colocar em perspectiva o casamento e as suas metas de vida.
e daí?
ela chegou à brilhante conclusão de que seu foco naquele ano deveria ser o mestrado em geometria analítica...
ui.
... e disse que poderíamos continuar juntos, casar depois. uma choradeira.
e como você reagiu?
sei lá, me deu a sensação de brochar. estávamos há 6 meses naquela função, vivendo o casamento, procurando apartamento, eu vendi o carro, tirei grana emprestada dos meus pais e a porra dum analista diz que o melhor era terminar um mestrado que ela enrolava fazia 3 anos?
sim, sim, que coisa.
larguei de mão, falei pra ela enfiar o mestrado e o analista no cu, desapareci total, pedi uns dias de folga na firma e me enfiei numa viagem de 2 meses no nordeste sem falar com ninguém, sem internet, sem celular, só ligava pros meus pais de semana em semana.
e ela?
nunca mais soube dela. nunca mais quis saber.
sabe, jamais imaginei ver você magoado por mulher.
porra. filha da puta. maluca.
calma, querido, já passou.
mas teve uma coisa, acho que foi aí que minha ficha caiu.
ficha?
daquela noite, a melissa.
ai, carlos, não precisa disso também.
tou falando sério. fui muito escroto. 
isso você foi mesmo. mas o tempo, sabe?
é. tem o tempo.
a gente acaba vendo que não tinha como deixar de ser aquilo, vai vendo como as situações vão se costurando.
eu não tinha o direito.
foi uma coisa que aconteceu e não era pra eu ver. hoje eu entendo melhor.
eu nunca te perguntei como você se sentiu ao saber.
péssima. emagreci doze quilos e depois engordei 25 em um ano.
caralho. peraí.
sim.
meus pais queriam me internar. aí um dia conheci o arnaldo na internet.
internet?
sim, e namoramos 2 anos.
nossa.
o arnaldo me fez ser mulher de novo. devo isso pra ele.

Os olhares se perdem nesse instante. Mas se cruzam por um breve segundo e Rita sorri. Um sorriso outro. Carlos não soube como reagir e suspirou.


minha mãe vive perguntando de você. ela não se conforma que a gente tenha terminado.
eu sei, ela vivia me ligando nos meus aniversários.
sério?
sim, ela não te falava?
não.
outro dia mesmo ela me ligou, era já de noite. perguntou se a gente tinha terminado por alguma galinhagem sua...
(!!!)
... mas eu menti, fica tranquilo. disse a versão oficial. que a gente a gente vinha discutindo a relação há tempos e um dia achamos melhor separar, cada um com seu canto.
minha mãe é foda.
ela é divertida, a gente sempre dava ridadas.
porra, desculpa por tudo. mesmo. 
desculpar o quê?
a merda que fiz. o porre. comer a melissa no banheiro da casa dos pais dela, onde eu estava com a cabeça? você a dez metros dali. só podia dar merda.
era uma festa, a gente andava brigado, você tinha bebido e cheirado também. e...
ah, não justifica. 
... deixa eu terminar! e a melissa era minha amiga, sim, mas sempre foi de fazer merda com homem. bem típico dela.
porra, você vendo nós dois sairmos do banheiro, o seu olhar, não esqueço.
eu já perdoei você, juro. aliás, eu até entendo a situação melhor agora.
como assim?

Olhar com ironia, close no olhar dela.

você também...?
sim, uma vez, tem uns meses.
...
estava viajando com umas amigas de férias, só as meninas da faculdade, tiramos uma semana no rio logo depois do carnaval. uma noite acabei ficando com um cara, fomos prum motel.
bah.
pois é.
mais um?
claro.
garçom, mais dois, o dele escuro.

Rita acende outro cigarro. Tensa. Zoom nas mãos acendendo o Zippo.

e quer saber, eu estava pronta pra contar tudo pro marcos, tinha até ensaiado sozinha - olha a cena - no banheiro da produtora.
rárárá. caralho.
e ele não me chega em casa com a cara mais feliz do mundo? tinha sido promovido a editor. ia ganhar o dobro. queria me levar pra jantar.
sei.
deu uma pena, aquele homem não precisava ouvir que era corno.
rárárá.
(dois chopes, um escuro.)
ôpa, brigadão, campeão!
e no dia seguinte vi que acordei igual, sabe, o marcos ainda era o marcos, eu ainda era a rita... uma semana e tinha horas que me surpreendia de lembrar daquele lance no rio. a sensação agora é de que foi uma daquelas coisas de juventude.
sim, uma daquelas trepadas perdidas.
e acabei deixando assim, porque não teve nada a ver com ele e a vida seguiu.
sei, sei.
existe a culpa, sabe, lá no fundo... mas o que eu sinto pelo marcos é tão mais vívido que não acho certo corroer nosso vínculo por conta de uma mesquinharia. ai, tá tarde, já, né.
sim, acho que podemos fechar por hoje.
nunca achei que fosse me fazer tão bem me abrir assim com você.
sinceramente, eu também não imaginava que ME faria bem te ouvir.

Rita olha o relógio e instintivamente mexe na bolsa. Carlos parece mais vazio, relaxado. Chamam o garçom e pedem a conta. Vão dividir por dois. Ela se levanta logo após deixar sua metade na mesa e se despede de Carlos. Parece apressada, como se quisesse fugir sem levantar suspeitas.


Rita queria sair do bar antes que Carlos percebesse que ela deixou na mesa um cartão onde havia seu telefone e e-mail pessoal.