sábado, 18 de dezembro de 2010

A rainha da lotação

Todos os dias, às 19h17, sai uma lotação Auxiliadora-Iguatemi da Alberto Bins, no centro de Porto Alegre, mais precisamente na Praça Otávio Rocha. Conforme fica bastante ilustrado na plaquinha de itinerário alocada junto ao vidro da frente do veículo, seu destino final é o próprio Shopping Iguatemi da capital, uns 40 minutos mais adiante ou menos, dependendo do humor das vias, do motorista e do destino, esse capricho.

É líquido e certo que sai uma anterior a essa no horário das 18h57 e uma mais adiante quando decerto o relógio do Mercado Público registra dezenove horas mais trinta e sete minutos, precisão afirmada não por mim, veja bem, mas pelo folheto que cada lotação carrega consigo à vista de passageiros curiosos numa folha de papel presa no painel de vidro que separa o banco do motorista dos assentos que ficam imediatamente atrás. Posso afirmar ser líquido e igualmente certo que outras (e quiçá sejam as mesmas, mas me faço entender) partem do mesmo ponto rumo ao destino citado através das costumeiras vias em outros horários, mas estas não me importam.

Precisamente na lotação das 19h17 um fenômeno ocorre logo que o coletivo faz a curva para sair da Doutor Flores e apontar na Rua da Praia, onde há uma lanchonete e uma loja de ternos marcando a esquina, em direção à Independência. O motorista encosta o carro e abre a porta para adentrar um passageiro, que, devo dizer, é uma mulher, portanto uma passageira. Ela então sobe as escadas toda de branco, sapatos baixos e olhos castanhos, por vezes cansados. O motorista lhe deseja boa noite e sorri. Eu aposto que ele, como eu, havia passado a meia-hora anterior temendo que nesse dia ela não o estivesse a esperar naquela esquina.

Porque a mulher daqueles olhos que carregam tanto silêncio não imagina o efeito que causa ao adentrar na lotação. O cabelo crespo nem todos os dias se revela solto e selvagem, mas quando assim se mostra, ela então caminha entre os assentos soberana, a rainha da lotação. Em silêncio, todos os homens que se encontram admiram a mulher procurar por seu assento e lá se acomodar. O motorista aguarda parado no ponto para que ela não tropece ou desequilibre, e somente faz este agrado a ela.

Os olhares dos felizardos dentro da lotação se esbarram, cúmplices. Há aquele natural sorriso mútuo, imperceptível a olho nu, comunicando as maiores obscenidades possíveis sem a emissão de um som sequer - um código entre homens de entendimento universal. Ela se aloja quase sempre nos fundos do veículo e passa o resto do trajeto calada, ouvindo rádio através do celular em fones de ouvido. Ela ficará então em seu mundo particular até o ponto final, quando será uma das últimas a descer, ganhando a rua e indo para sabe-se lá onde, para casa, para o emprego, para os braços do amante, para qualquer lugar onde outros homens decerto a esperam feito eu e o motorista.

Fosse eu um sujeito colhudo, faria algo para aproveitar o caminho em comum e ganhar sua atenção. Talvez ganhando a atenção da moça de branco e pele escura por segundos eu teria a chance de convencê-la a descer e me seguir, como se houvesse para onde levá-la se assim procedesse. Não que eu resida num pardieiro, muito pelo contrário, mas a arrumação do meu apartamento em muito se deve ao fato de que nele também se encontra a minha esposa. Chegar com a rainha da lotação em casa após um dia de trabalho iria me demandar, a curto prazo, uma boa explicação e a longo prazo, desconfio, a contratação de seguranças para garantir minha integridade física nas ruas da cidade.

E se eu escrevesse versos? Se ela gostasse, iria sorrir. Mas também iria querer saber mais, mais dos versos, mais de quem os fez e aí eu começo a me complicar. Ela iria acabar inquirindo a respeito do motivo, porque eu poderia fazer versos sobre tudo, aposto que há versos sobre as mais variadas coisas, até sobre ônibus. Como eu iria dizer àquela mulher toda de branco, de olhos tristes e castanhos e calados, andar macio e lábios indiferentes algo como "há tanta poesia em você que me dá até vergonha de ler o pouco que fui capaz de te tomar emprestado"? E o que há pra ser dito ou mesmo feito diante de uma mulher após esse tipo de confissão?

E, convenhamos, uma mulher daquelas deve receber durante o dia todo tipo de gracejos e cantadas, deve perceber os olhares se esmerando em desnudá-la por esquinas, corredores, salas de espera. Supondo que as roupas brancas sejam a vestimenta de ofício, que ela seja médica ou enfermeira ou nutricionista, dentista ou recepcionista que seja, batalhões de desamparados ocupam cotidianamente seus ouvidos com súplicas para que ela dê jeito na ferida que acabou de ser aberta em seus corações, na febre terçã que lhes invadiu de súbito, que ela veja se há algo errado em suas vistas porque parece que um anjo está falando com eles. Nem pretendo entrar no terreno do baixo calão, imaginem vocês o tipo de coisa que uma mulher bem fornida no porte e nas curvas precisa aguentar. Ela iria amassar o versinho e jogar longe, iria me olhar de cima a baixo e reparar na aliança; posso sentir o desprezo no olhar ao perceber o adúltero diante de si. Pior, ela iria trocar o horário ou o caminho ou os dois e babau, o motorista iria me marcar ("Vou te matar, fiasquento, não fuja" ele diria aos berros enquanto escapo em desabalada carreira) e também eu teria que trocar meu trajeto de volta pra casa.

Por que, afinal, nesse mundo moderno, estou supondo que a rainha da lotação precisa ser uma criatura casta e alérgica a maus caminhos? Vejam vocês onde posso acabar entrando, com trocadilho e tudo. Ela pode apenas estar esperando que um de nós tome a iniciativa: o motorista, o boy com a pasta cheia de contas vencidas, o universitário cabeludo, eu. A roupa branca e a pontualidade podem ser artifícios calculados com nuances de sadismo, assim como a indiferença nos lábios, o andar macio, o castanho nos olhos, o crespo selvagem. Imagine os olhos se avivando, os lábios se entreabrindo e a confissão que ela já não aguentava mais esperar que eu tomasse uma atitude, o pedido para que eu a arrastasse dali para qualquer lugar, qualquer um mesmo, vamos ali que tem uma sombra e quase ninguém vai nos ver. E se eu tivesse que levar comigo a visão dela refletida em espelhos de teto, ela de cócoras, ela baixando as calças, ela fechando os olhos e respirando pesado nos meus afazeres cotidianos? Meu cotidiano envolve atender telefonemas, beber café, contar piadinhas insossas aos colegas de ofício, ler relatórios e corrigir eventuais vírgulas fora de lugar, lembrar de comprar água, pão que acabou, não esquecer do aniversário dos parentes. Se estou no futebol de toda quinta de noite e na hora de arrematar ao gol um seio me surge na penumbra dos quartos escuros dos amantes, perco o gol, meu time perde o jogo por minha culpa e a desatenção pode me privar de ver o zagueiro adversário chegar junto e me quebrar uma perna.

E aí, todo homem deveria saber bem essas coisas, quando a mulher te dá com alegria, ela acaba se apoderando de você, em maior ou menor escala. Eu, homem casado, não teria a menor chance de sobreviver intacto quando ela começasse a me cobrar mais do que simplesmente a proveitosa prática. Vai que por detrás do silêncio se camufle uma dessas amantes que se tornam mais possessivas a cada encontro, mais invasivas, mais constantes? Um belo dia eu vou me achar na situação de dever satisfações a duas mulheres, uma com direitos de fato de se apossar de parte do meu salário e saberei lá que mais com o martelo de um juiz moralista, outra sem nada a perder e nutrida de bastante frustração e desejo de vingança.

Por isso me resigno a não existir para ela. É mais seguro. Deixo essa rainha para um rei à sua altura, que não tema a força que vive imersa naqueles castanhos. E por garantia, a partir de amanhã vou tentar chegar a tempo de tomar a lotação das 18h57. A minha esposa vai gostar que eu chegue mais cedo em casa. Só não levo flores porque ela vai desconfiar.

2 comentários:

Leandro Fonseca disse...

SENSACIONAL.

Rosi disse...

Nenhum homem deveria ter medo de se mostrar por mais soberana e rainha que seja a mulher...